Curtindo a Vida Adoidado

 

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Curtindo a Vida Adoidado pode ser considerado um dos clássicos do cinema e, também, um dos clássicos da Sessão da Tarde. Lançado em 1986, o filme traz à tona o dia em que Ferris Bueller (Matthew Broderick) decide matar aula e passar o dia inteiro se divertindo pelas ruas de Chicago. Ferris, contudo, não vai sozinho. Traz consigo seu melhor amigo, o hipocondríaco Cameron (Allan Ruck), além da namorada Sloane (Mia Sara). 

O filme é dirigido por John Hughes e traz algumas inovações. Uma delas é a interação entre Ferris e a câmera. Logo no início do filme, Ferris, nessa espécie de diálogo com o público, destaca: “A vida passa rápido demais; e se você não parar de vez em quando para vivê-la, acaba perdendo seu tempo”. 

A frase parece expressar toda a ideia do filme. Neste sentido, vale destacar que o nome do filme em português (Curtindo a Vida Adoidado) não traduz este sentimento/lema, bem ao contrário do título original em inglês: Ferris Bueller's Day Off. Diz-se isto porque a proposta do filme parece ser algo como uma espécie de dia sabático; um permitir-se fazer certas coisas, não se cobrar tanto; não levar a vida tão a sério; permitir-se catarses esporádicas para uma vida plena. 

Em meio a este contexto, dois personagens se destacam. O primeiro é o amigo Cameron, que vive pressionado pelos pais e com sintomas recorrentes de doenças, sem forças para reagir, para se expressar, para ser ele próprio. Há uma cena, inclusive, que Ferris chega a comentar com Sloane que estar doente é uma forma de Cameron de se sentir bem; de existir. 

 

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Outro personagem fundamental no filme é o Diretor da Escola, Edward Rooney (Jeffrey Jones), que, em vez de se focar no processo educacional à formação pessoal e social dos alunos, vive travando uma espécie de batalha irracional contra Ferris. Seu propósito é “destruí-lo”, como chega a declarar textualmente em certo momento, o que representa a antítese da essência do vocábulo educação. Aqui, a propósito, reside um dos pontos fortes do filme, a saber: o sentimento de irreverência inconsciente, mas presente e nem sempre contido dos adolescentes, contestando certos comportamentos dos adultos que desdizem o que dizem ser e fazer.  

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O tom contestador/desafiador também está presente na cena que se passa em um sofisticado restaurante (Chez Quis), no momento em que um maitre recebe os três jovens com desdém, chegando a expulsá-los do recinto. Isto, porém, não se concretiza dada a habilidade de Ferris, que, após se declarar com o sugestivo título de O Rei da Salsicha, explora o lado fraco do sujeito, reduzindo-o a escravo de seus próprios valores. A passagem expressa um brado por respeito e dignidade em meio a uma cultura excludente, alicerçada em aparências, títulos etc. 

O filme ainda traz momentos que levam a outras reflexões. Há uma cena em que os colegiais estão no museu Art Institute of Chicago. Na ocasião, Cameron olha para a tela de Tarde de Domingo na Ilha de La Grande Jatte, de Georges Seurat, e se identifica com a imagem da menina, que está de mãos dadas com uma mulher, no centro da pintura. Neste momento, o que se vê é uma sucessão de imagens, alternando o rosto de Cameron e da menina da tela, em uma aproximação constante, até que o rosto de Cameron parece se fundir com o da menina, porém o resultado disso é a inexistência de rosto algum. 

Ainda no museu, Ferris e Sloene se beijam, num misto de pureza, espontaneidade e entrega mútua. A crítica, portanto, é explícita e dispensa comentários. As imagens falam por si. 

Na sequência, e não por acaso, ocorre uma das cenas antológicas de toda a história do cinema. Em meio a uma parada alemã (Parada do Dia de Von Steuben), cujos integrantes vestem trajes germânicos tradicionais, Ferris simplesmente invade um dos carros alegóricos e, após cantar Danke Schoen, de Wayne Newton, com certa discrição e timidez, de repente irrompe com Twist and Shout, dos Beatles, em uma energia que contagia todos que estão próximos à parada, mas principalmente quem está assistindo ao filme. 

A cena reflete a essência do filme. Afinal, como diz Ferris: “a vida passa rápido demais; e se você não parar de vez em quando para vivê-la, acaba perdendo seu tempo”. 

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