Lixo Extraordinário

lixo-extraordinarioLixo Extraordinário é um documentário produzido por brasileiros e britânicos, entre agosto de 2007 e maio de 2009, no maior aterro sanitário do mundo, em Jardim Gramacho, periferia da cidade do Rio de Janeiro. O filme mostra a iniciativa do renomado artista plástico brasileiro, Vik Muniz, que se propõe a acompanhar o trabalho dos catadores de material reciclável no local, que trabalham sobre montanhas de lixo ali acumuladas. Vik tem por objetivo produzir alguma espécie de arte a partir de suas impressões pessoais dali, porém não tem a menor ideia do que irá fazer e, muito menos, do que irá encontrar pela frente. Porém, uma coisa é certa: o produto da venda da obra a ser produzida deverá ser revertida para a própria associação dos catadores, que organiza os trabalhos no aterro.

O filme tem duração de 99 minutos e ganhou vários prêmios, dentre estes o do Festival de Sundance e o da Anistia Internacional, ambos em 2010, além de concorrer ao Oscar, como melhor documentário, em 2011.

O filme, como se vê, teve um “final feliz”. No próprio trailer já se pode saber que a obra de Vik Muniz obteve êxito, sobretudo quando um dos trabalhos ali produzidos chegou a ser vendido num dos leilões mais tradicionais de Londres, ao preço de cerca de R$ 100.000,00. Mas isto é o menos importante no filme.
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Também poderia se pensar que o filme destaca a consciência ecológica, a importância da reciclagem etc. Isto, sem dúvida, está presente, mas não só.

O que chama mesmo a atenção é que Vik, ao longo do trabalho, encontra pessoas que, pelas contingências e circunstâncias da vida, praticamente se viram obrigadas a trabalhar no lixo – todo tipo de lixo – e, assim, obter o próprio sustento e de suas famílias. Pessoas que, como elas mesmas dizem, poderiam ter optado por um caminho mais “fácil” e lucrativo, caso da prostituição ou da criminalidade, mas que, ao contrário disso, preferiram seguir um trabalho honesto.

Vik então percebe que aquelas pessoas têm muito a lhe ensinar. Aliás, logo quando ele vai pela primeira vez ao local, chega a comentar com um dos colegas da produção: “apesar de estarem no lixo, eles não parecem deprimidos…parecem que estão bem…Por quê?”

É assim que Vik passa a enxergar pessoas que valorizam a educação, lendo tudo o que aparece no lixo, desde obras como O Príncipe, de Maquiavel, a Quando Nietzsche Chorou, e que sonham em construir no local uma biblioteca pública para a comunidade. Vik também constata que, mesmo naquelas condições adversas, as pessoas não perdem a esperança de realizar seus sonhos pessoais, caso de uma jovem de 18 anos, e já mãe de duas crianças, que quer um dia poder trabalhar com crianças. Há, por outro lado, aquelas que se sentem realizadas apenas pelo que estão fazendo ali, caso de “Irmã”, responsável pelo preparo a céu aberto da comida dos trabalhadores, mas que, com orgulho e satisfação, afirma: “eu, aqui, não deixo ninguém passar fome”.
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No filme, do mesmo modo, é mostrado mais um elemento que compõe parte da natureza humana: a solidariedade. Isto fica nítido quando outro dos trabalhadores (Zumbi), conta que, em certa ocasião, foi prensado acidentalmente por um trator e teve pernas, braços e costelas quebradas, ficando muito mal no hospital, à beira da morte, e precisou de transfusão de sangue. Contudo, seus colegas de trabalho não lhe abandonaram e foram prontamente lhe doar sangue, o que, segundo ele, foi até bom, pois “o estoque de sangue do hospital nunca esteve tão cheio como na época”.

Isto não quer dizer que o ser humano tenha só um lado bom. Houve, sem dúvida, a percepção do artista ao pinçar histórias de vida que impressionam. Ainda neste aspecto, o filme mostra a indiferença e falta de empatia do ser humano, quando assaltantes roubam todo o dinheiro da associação (R$ 12.000,00), que seria utilizado para pagamento dos salários de seus membros.

A partir das histórias de vida que são apresentadas no filme e que nos tocam, o que se pode dizer que ele faz um resgate humanístico. Nesse sentido, felizmente, de alguns anos para cá propostas educacionais no Brasil tem buscado resgatar a necessidade de formação humanística, do ensino fundamental ao superior. Seguindo esta trilha, o CNJ, mediante a Resolução nº 75/2009, impõe como obrigatória nos concursos para a magistratura provas que versam sobre questões de filosofia, psicologia, sociologia etc. Diante disso, indaga-se: por quê? Pra quê?

A resposta a esta pergunta, s.m.j., já consta desde os gregos antigos, tal como se recomendado no templo de Apolo, em Delfos, nas montanhas da Hélade, sede de um famoso oráculo, que dizia: “conhece-te a ti mesmo”. É que, conhecendo-se a si mesmo, pode-se entender, compreender e conviver melhor, com mais perspicácia e sensibilidade, consigo e com o outro. Afinal, o outro é também um “outro-eu” com o qual nós, querendo ou não, estaremos sempre convivendo. Assim agindo, somos retirados do “piloto automático” que nossas ocupações pessoais e profissionais nos remete e somos conduzidos a repensar e – mais que isso – a sentir o que realmente importa na vida.

Lixo Extraordinário é uma excelente oportunidade de conhecer o outro e, por conseguinte, a si mesmo. O ser humano, onde quer que se encontre; seja nos refinados leilões de artes plásticas em Londres; seja no interior do maior aterro sanitário do mundo, será sempre humano…

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