Peixe Grande (“Big Fish”)

big-fish-37-300x200“PEIXE GRANDE e suas Histórias Maravilhosas” (2003) é um filme dirigido por Tim Burton, baseado no livro “Big Fish: A Novel of Mythic Proportions”, de Daniel Wallace, e que trata da relação pai e filho. Edward Bloom (Albert Finney) é o pai que sempre contou sua vida para seu filho, Will Bloom (Billy Crudup), mesclando fantasia e realidade. O filho, quando criança, encantava-se com as narrativas mágicas do pai, mas, ao se tornar adulto, passou a não mais aceitá-las. O mito do pai herói e perfeito desapareceu. Will agora quer fatos e não ficção. Quer conhecer a pessoa, e não o rótulo do pai. Chega a sentir vergonha do pai quando este conta suas histórias para outras pessoas, mesmo que estas fiquem admiradas com elas. Para Will tudo não passa de fantasia do pai; de uma fuga da realidade. Em certo momento, Will chega a dizer para si: “éramos como estranhos que se conheciam muito bem”.

Nas realidades forjadas pelo pai, não faltou realismo fantástico, desde a luta de Edward contra um gigante, até sua passagem por uma cidade exótica onde as pessoas não usavam sapatos. Houve, também, a vitória dele sobre uma floresta em que as árvores tinham vida, eram más e lhe atacavam sem motivo, como também o período em que ele trabalhou num circo onde havia pessoas com duas cabeças.

Como se vê, esse era o mundo que Ed Bloom via e transmitia para seu filho; um mundo melhor do que de fato é; mais emocionante, mais tenro e – por que não? – mais belo. No entanto, com a chegada da idade da razão no filho, as histórias passaram a não mais fazer sentido para o jovem. Pelo contrário, elas os afastavam cada vez mais, tornando uma relação de amor mútuo, impossível de ser compartilhada; de ser vivida.

Este momento da relação “pai e filho”, foi igualmente captado por Hermann Hesse, e consta do romance Demian, com as seguintes palavras: “De todo esse episódio, ou melhor, da parte que venho relatando, aquele foi o momento principal e inesquecível. Foi a primeira falha que percebi na perfeição de meu pai, a primeira rachadura nos fundamentos sobre os quais descansara a minha infância e que o homem tem que destruir para chegar a si mesmo”.
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Para melhor entender como tudo isso se passa ao longo do filme, é preciso dizer que, no início da trama, Will tem uma acirrada discussão com o pai e, por conta disso, ambos permanecem três anos sem se conversarem. Esta situação só vem a mudar após Will receber um telefonema de sua mãe lhe dizendo que o pai está prestes a morrer. Will, então, retorna para a casa dos pais e encontra o pai acamado, porém ainda com forças para contar suas histórias maravilhosas para quem estivesse disposto a ouvi-lo, caso de Josephine, esposa de Will, e que está lhe acompanhando na visita. Para agravar o quadro, Josephine está grávida de sete meses e Will sente que não tem um referencial paterno a lhe conferir segurança para essa nova fase da vida. É quando seu pai lhe diz: “ter um filho modifica tudo…você vai ver!”

O filme segue e Will, casualmente, encontra na casa dos pais documentos e objetos pessoais do pai. Para seu espanto, diante de tais objetos, as narrativas paternas parecem não ser tão absurdas como ele supunha. Mas onde está a verdade? Esta é a resposta que Will procura. Contudo, será que existem verdades nessas histórias? Ou será que, como disse Niestzsche, “não existem fatos, apenas interpretações“. João Ubaldo Ribeiro, igualmente, fez observação semelhante em “Viva o Povo Brasileiro”, ao dizer: “o segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, o que existem são histórias”.

O filme, ao que parece, segue por essa trilha. Isto fica claro quando um dos personagens diz: “a história da pessoa se mistura com a do personagem” (…) “e o que fica são as histórias, e não o personagem”.
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O enredo ainda comporta outras leituras.

Por exemplo: quem seria realmente Edward Bloom (pai)? Neste aspecto, vale prestar atenção na cena em que Edward, ainda jovem, vai ao encontro de Sandra Temple (Jessica Lange), uma garota com quem ele queria se casar. No entanto, ao encontrá-la, ele percebe que ela está noiva de Dom Price (David Denman), um colega de infância e adolescência de Edward, e que não tinha nada demais para “ganhar” a garota. Muito pelo contrário, Price era sempre o reserva nos jogos de basquete; não brilhava nas partidas de “rugby” e, muito menos, foi quem salvou um cão de um incêndio, glória esta creditada a Edward, segundo ele próprio. Apesar disso, é Price quem, ao saber da pretensão de Edward em relação à sua noiva, dá uma surra no rival até deixá-lo ao chão. Ou seja, Price é o sujeito “normal” e que vence o “ideal(izado)”. Mesmo assim, Sandra decide se casar com Edward, o qual para ela correspondia exatamente às historias por ele contadas. Quase simultaneamente a escolha de Sandra, Price morre de maneira súbita e inexplicável, o que pode ser interpretado como: no amor, o ideal(izado) prevalece sobre o real. Em suma, pouco importa o que se “é”, mas o que se “vê”.

A par desse aspecto, de acordo com o filme, a barreira entre pai e filho somente será rompida mediante uma comunicação sem palavras, e que mescle razão e emoção. Só assim cada qual conseguirá se ver no outro; reconhecer suas diferenças; libertar seus sentimentos, romper seus pré-conceitos; não de maneira lógica, mas mediante uma fusão, que não se explica, nem se entende, apenas se sente. E nesta fusão não haverá verdades ou mentiras, e sim apenas a comprovação de que cada um quer o melhor para o outro, embora tentem isso do único jeito que sabem e conseguem fazer.

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