As Invasões Bárbaras

invasoesbarbaras-1-200x300As Invasões Bárbaras” (“Les Invasions Barbares”) é um filme canadense, dirigido por Dennys Arcand, que ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004. Seu enredo traz Rémy, um professor universitário, próximo à aposentadoria, que se vê, de súbito, com uma doença gravíssima, com poucas chances de cura. Sentir a presença iminente da morte causa em Rémy uma série de reflexões sobre sua vida; suas crenças, valores e ideologias; enfim, o coloca em confronto com o que ele fez e o que deixou de fazer ao longo de sua vida.

Ainda neste aspecto, já no hospital, Rémy se lembra do momento, vivenciado poucos dias antes, quando noticiou em sala de aula que se afastaria de suas atividades acadêmicas para tratamento de sua saúde. Como reação, os alunos apenas manifestaram interesse em saber se o prazo para entrega dos trabalhos continuaria o mesmo. O episódio fez Rémy se sentir apenas um número, até porque, na mesma cena, adentrou na sala a professora substituta e a aula se prosseguiu como se nada houvesse acontecido. Nesta mesma ocasião, Rémy não conseguiu sequer se despedir do reitor na Universidade, uma vez que este estava ocupado.
A nova realidade na vida de Rémy faz com que ele se reaproxime de amigos antigos, da família e, principalmente, do filho (Sébastien), com quem nunca manteve um bom relacionamento. Sébastien vive na Inglaterra e trabalha em área totalmente diversa do pai (mercado financeiro), na qual é muito bem sucedido. Isto, porém, não basta para o pai (Rémy), o qual não se cansa de criticar o filho (Sébastien) por ele nunca haver lido um livro na vida. Sébastien, por sua vez, queixa-se da falta de atenção do pai em relação a ele desde a infância. Portanto, o que se vê é uma total ausência de comunicação entre ambos, embora o afeto entre pai e filho seja mais do que evidente.
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Paralelamente, o filme traz discussões de cunho ético, uma vez que Sébastien, com a intenção de dar ao pai as melhores condições para o tratamento de sua saúde, não hesita em tentar “comprar” tudo e todos, com o dinheiro que tem.

Da mesma forma, há fomento a outros temas ligados à ética médica, tais como uso de drogas ilícitas em tratamentos de saúde, e sobre a eutanásia, como suposta alternativa a aliviar o sofrimento do paciente em alguns casos.

Mas o que tudo isto tem a ver com o título do filme: “As Invasões Bárbaras”?

É claro que não há qualquer relação com a queda do Império Romano. É bem verdade que, em dado momento, o filme faz referência à queda das Torres Gêmeas no 11/09, o que, de certa forma, poderia ser tomado como um mote para o título. Todavia, crê-se que o enfoque é outro.

A palavra “bárbaro” vem do grego “βάρβαρος” e, na Grécia Clássica, a expressão “πας μη Ελλην βαρβαρος” pode ser traduzida por “quem não é grego é um bárbaro“. Bárbaro, assim, é o outro; o estranho, o diferente, aquele que não mantém identidade ou vínculo para conosco.

Sob este ângulo, a expressão “as invasões bárbaras” pode ser interpretada como aqueles fatos que nos acontecem sem que queiramos ou esperamos. Os fatos imprevisíveis ou nem tanto, mas que nos tomam de surpresa na vida quando menos estamos prontos para enfrentá-los. Nesse sentido, nada mais “bárbaro” do que a ideia de morte, tanto para quem fica, quanto para quem recebe sua sentença.
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Para finalizar, tem-se a impressão de que a música de encerramento do filme (L’Amitié), interpretada por Françoise Hardy, na verdade, é parte integrante do filme. A letra e a própria melodia em comparação com o enredo do filme autorizam esta conclusão…

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