O Senhor das Moscas

aaa-215x300O “Senhor das Moscas”, ou “Lord of the Flies” no original, é um romance escrito pelo inglês William Golding e publicado em 1954. Na época, não vendeu mais do que 3.000 cópias, antes de ser retirado do mercado. Em 1983, contudo, após ressurgir e ser sucesso de público, rendeu a seu autor o prêmio Nobel de literatura. A obra recebeu duas adaptações para o cinema. A primeira, em preto e branco, em 1963, dirigida por Peter Brook. A segunda, em cores, em 1990, com Harry Hook. É desta última versão que falarei abaixo.

O enredo tem como base a queda de um avião numa ilha deserta e paradisíaca. Do acidente sobrevivem cerca de 20 garotos, entre 8 e 12 anos de idade, então estudantes de um colégio interno na Inglaterra.

De início, a sensação é de liberdade plena, pois não há aulas, adultos ou ordens a cumprir. Há somente férias e sem prazo para acabar. Todavia, os garotos logo percebem que o “paraíso” também tem seus inconvenientes; que a sobrevivência depende de alimento e proteção contra condições climáticas adversas, exigindo ações organizadas. Além disso, é preciso ter um plano para chamar a atenção de possíveis socorristas que passem pelas imediações. É aí que tudo começa. É aí que o filme chama a atenção para, no mínimo, dois aspectos. Um, em relação ao convívio social; outro, individual, psíquico.
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No primeiro, está o dilema entre viver em plena liberdade, sem compromissos, sem convenções, sem divisão de tarefas ou se abrir mão de parte da liberdade individual a benefício de um “bem comum”. Diante disso, entre os meninos, surgem dois aspirantes a líder: Ralph, que representa a razão, a democracia, até porque foi “eleito” pelos demais; e, Jack, que promete a ausência de regras e a não submissão a ninguém, embora, na prática, acabe por sujeitar seus seguidores às suas opções. Há, ainda, meninos como os gêmeos Sam e Eric, os quais representam pessoas que não agem, nem pensam por si próprias; apenas seguem a conveniência de momento.

É nesse contexto que, mesmo crianças, em tese, ingênuas e inocentes, revelam as diversas faces do ser humano em suas relações interpessoais. Idealismo e egoísmo se confrontam como duas barras paralelas que nunca se encontram. Discursos e promessas não passam de táticas para se atingir objetivos, não necessariamente coletivos. A adesão, ou não, dos demais meninos a um dos líderes, por sua vez, baseia-se apenas em sentimentos e interesses individuais. A violência e a morte surgem “naturalmente” como reflexos de atitudes extremadas e sem limites, o que nos remete a Hobbes e seu “Homo homini lupus” (“o Homem é o lobo do homem”).

E, nessa espécie de contrato social às avessas, surge o desconhecido e com ele o medo. Diz-se isto porque as crianças passam a ouvir e ver algo na floresta, mas não conseguem identificar exatamente o que seja. Em consequência, passam a chamá-lo de “monstro” ou de “fera”. Em seguida, numa atitude mística e repleta de rituais, após matarem um javali, espetam sua cabeça em uma estaca e a oferecem ao sobrenatural, a fim de que o “monstro” não lhes ataque. Sobre o crânio do javali, que passa a ser objeto de reverência entre os meninos, acorrem moscas diante de seu estágio adiantado de putrefação, daí o nome “O Senhor das Moscas”, tradução literal do hebraico “Ba’alzevuv” ou “Beelzebub” em grego, o que parece uma clara referência ao personagem bíblico.
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O filme pode ser visto também sob uma perspectiva individual, psicológica. Ralph seria a consciência, a razão, o agir correto, de acordo com padrões éticos constituídos nos padrões de civilização. Jack, por outro lado, seria o agir instintivo, selvagem, animal, hedonista,
A par disso, percebe-se várias semelhanças entre “O Senhor das Moscas” e a série “Lost”, desde a queda do avião em uma ilha deserta; à disputa pela liderança (leia-se: poder), além do emprego recorrente ao sobrenatural. E mais: em algumas passagens da série (Lost), os personagens James Sawyer e Charlie Pace fizeram menção expressa ao livro “O Senhor das Moscas”. Há quem diga que “reality shows” como “Survivor” ou “No Limite” tiveram raízes na obra.

A influência de “O Senhor das Moscas” se estendeu ainda à música. Em 1995, o Iron Mainden compôs “Lord of the Flies”, que pode ser encontrada no álbum “The X Factor”. O mesmo se deu com a banda punk “Gatsby’s American Dream” com a música “Fable”.

Em suma, assistir ao filme ou ler ao livro é conhecer um pouco mais do ser humano

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