O Quinze – Rachel de Queiroz

O Quinze, publicado em 1930, é o primeiro romance de Rachel de Queiroz e foi escrito quando a autora contava apenas com 20 anos de idade. Narrado em terceira pessoa, O Quinze tem como mote uma análise social a partir das agruras da seca no Ceará. O título faz referência à seca de 1915 que afligiu o Estado, na região do Quixadá.

Rachel de Queiroz que vivia na região, ainda era criança na época da seca e por certo não pôde compreender o drama das pessoas na ocasião. No entanto, Rachel parece ter buscado na memória coletiva e nas narrativas correntes dos habitantes locais o sentimento de agonia que lhes tomou conta naquele momento, o que é exposto com muita sensibilidade ao leitor.

O enredo traz diversos personagens, caso de Dona Inácia, Capitão, Paulo, Conceição, Dona Idalina, Dona Maroca, Chico Bento, Cordulina etc. Dentre os personagens, dois se destacam: Conceição e Chico Bento. Conceição é uma professora de 22 anos e que está passando as férias na região na casa da avó, Dona Inácia. Chico Bento é vaqueiro e trabalha na Fazenda de Dona Maroca. Contudo, com a seca Dona Maroca decide soltar o gado para não vê-lo morrer de sede e fome. O fato deixa Chico Bento e a família sem trabalho, não lhes restando outra alternativa a não ser seguir para outras paragens.

É neste contexto que o romance se desenvolve. Ora retrata o calvário dos retirantes, então personificados em Chico Bento e sua família que seguem em direção à cidade, suportando fome, sede, limitações físicas, além de ter de conviver com a morte sempre ao lado. Ora mostra o ponto de vista de Conceição, uma jovem culta que, mesmo oriunda de uma classe relativamente abastada, também não está livre dos efeitos deletérios da seca. Este, aliás, é um dos pontos que chamam a atenção no romance. É que não há uma luta de classes, tampouco uma exposição maniqueísta, em que pobres são “bons” e ricos são “maus”. No enredo, todos, de certa forma, estão sujeitos às mazelas da seca; todos estão sujeitos às forças da natureza.

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Além desses elementos, ao longo da narrativa emergem ainda dramas psicológicos dos personagens, em que cada um reage de modo próprio diante das adversidades da vida, sem que existam fórmulas, mapas ou receitas infalíveis para as escolhas. Na verdade, o que existe é apenas uma constante tentativa e erro, alimentados pela esperança de dias melhores.

Outro componente que merece destaque diz respeito à personagem Conceição. Nela pairam sentimentos ambíguos. Por um lado, há certa irreverência em seu modo de ser. Ao contrário das demais jovens de sua idade, Conceição costuma repetir que não nasceu para se casar e diz buscar nos livros o prazer e o sentido de sua vida. Esta mesma irreverência, contudo, desaparece quando ela desiste de tentar viver uma história de amor com um dos personagens. Ao que parece, Conceição se desiludiu com aquele cenário e não quer seguir pelo mesmo caminho de seus conterrâneos, tampouco deixar herdeiros que o sigam.

É comum ouvir que O Quinze é um romance regionalista. Isto não é de todo incorreto, haja vista que tem como mote o flagelo da seca no Ceará de 1915. Todavia, ao se notar as fortes e intensas emoções, seja no plano social, seja psicológico que emergem ao longo da trama, pode-se dizer que O Quinze é mais do que um romance regionalista. O Quinze fala de escolhas, de esperança, de coragem, de fé, de solidariedade; O Quinze fala da vida.

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