Padre Sérgio – Liev Tolstói

fullsizerender-5-300x227Padre Sérgio, de Liev Toltói (1828-1910), foi publicado pela primeira vez em 1898. Trata-se de uma novela que conta a vida de Stiepán Kassátski. Stiepán é perfeccionista e ambicioso. Busca a fama, o sucesso, o reconhecimento e a admiração alheia e não poupa esforços para tanto. É disciplinado e determinado em tudo o que faz. Contudo, essa busca nunca chega ao fim. A cada conquista, novos desejos emergem; e, na ausência de novas metas, tudo se torna enfadonho para Stiepán.

Inicialmente, Stiepán aparece como um jovem militar e que tem todas as qualidades para uma carreira brilhante. Isto não lhe basta, porém. É preciso mais; é preciso também a ascensão social. Para alcançá-la, Stiepán inicia um relacionamento com a Condessa Korotkôva, uma jovem de família abastada, e com ela pretende se casar. Em certo momento, Stiepán chega a acreditar que está apaixonado pela Condessa, todavia basta ela lhe revelar que já havia tido outro relacionamento amoroso antes dele, justamente com alguém a quem ele muito admirava, que Stiepán rompe o noivado, abandona a carreira militar e segue para um monastério com a intenção de se tornar monge.

No monastério as coisas não mudam. Stiepán continua se sentindo superior aos outros. Na verdade, suas exigências pessoais até aumentam. No monastério ele busca a máxima perfeição não só exterior, como a interior. Almeja vencer os pecados da cobiça e da lascívia.

Ao fim de três anos Stiepán é ordenado padre, daí o título: Padre Sérgio. No monastério, ele estudou tudo o que devia estudar e alcançou tudo o que poderia ser alcançado, mas isto no fim das contas lhe causava um sentimento de vazio existencial. Mesmo a notícia da morte da mãe foi encarada com indiferença por ele. Afinal, todas suas energias estavam centradas somente em si.

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Após algum tempo, Padre Sérgio torna-se eremita e adquire a fama de fazer milagres. Sua fama se espalha e diariamente e ele passa a atender dezenas de pessoas diariamente e que lhe suplicam desde cura de doenças até a solução de problemas menores em suas vidas. Esta aparente dedicação ao próximo não é o bastante para Padre Sérgio. No fundo, ele sabe que realiza seu trabalho apenas com um novo objetivo pessoal: tornar-se santo. Também sabe que não consegue controlar como gostaria seus ímpetos sexuais, e tudo isto lhe desencadeia sentimentos de fracasso e de culpa.

Seja como for, no fim do livro Padre Sérgio consegue encontrar sua redenção. Para que isto ocorra será preciso uma reviravolta na trama e, sobretudo, no modo de ser e nos valores de Sérgio. Nem poderia ser diferente, pois para se libertar de tantas grades que ele mesmo se impôs só mesmo com rupturas radicais.

Em suma, a novela de Tolstói fala da vaidade e das carências humanas mais íntimas; da culpa, da busca do sentido da vida e de um sentido na vida. Defende que uma vida em plenitude e feliz não está necessariamente na fama, nos títulos ou no dinheiro, e sim no interior do indivíduo, a fim de que este possa estar livre dos anseios dos outros e, principalmente, de suas próprias exigências.


José Ricardo Alvarez Vianna



Fragmentos:

“Padre Sérgio vivia recluso havia seis anos. Tinha agora quarenta e nove anos. Levava uma vida dura. Não devido aos pesados jejuns e preces – isso não lhe era difícil –, mas as um conflito interior absolutamente inesperado. As fontes desse conflito eram duas: a dúvida e a concupiscência carnal. Ambas as inimigas surgiam sempre juntas. Pareciam duas coisas distintas, quando na verdade eram uma só e a mesma.”

“Sim, mas tudo isso era maculado e encoberto pela vaidade humana. Não há Deus para aqueles que, como eu, vivem para a vaidade humana”.

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