Adeus às Armas – Ernest Hemingway

adeus-as-armas-201x300Adeus às Armas é um romance com fortes traços autobiográficos. Ernest Hemingway (1899-1961) tentou se alistar para ir à Primeira Guerra Mundial, mas não conseguiu por problemas de visão. Mas ele não desistiu. Em nova tentativa, conseguiu vaga como motorista de ambulância na Cruz Vermelha e veio a prestar serviços para o Exército da Itália durante o conflito. Sua participação no combate, porém, não durou muito. Logo no início foi gravemente ferido e encaminhado para tratamento em Milão. Lá conheceu a enfermeira Agnes Von Kurosky por quem se apaixonou, contudo não foi correspondido.

Em Adeus às Armas o protagonista Frederic Henry é um norte-americano que se alista no Exército italiano para prestar serviços como motorista de ambulância. Sua participação, assim como a de Hemingway, não dura muito. Ele é ferido gravemente no joelho no momento em que socorria um colega. Henry é, então, encaminhado para tratamento em Milão, onde se aproxima da enfermeira Catherine Barkley. Na ficção, todavia, o romance é intenso entre ambos, com uma bela história de amor mesmo em plena guerra.

Este não foi o único romance em que Hemingway abordou a guerra. O tema apareceu em outros livros como O Sol também se levanta e Por quem os sinos dobram, o que revela o espírito contestador, antibelicista e pacifista de Hemingway. Isto, por certo, contribuiu para que ele fosse agraciado com o Prêmio Nobel em 1954.

Em Adeus às Armas há várias descrições bastante realistas de episódios no Front em que muitos perdem suas vidas em plena juventude e tem seus sonhos despedaçados sem qualquer explicação ou justificativa para tamanha estupidez. Ainda neste aspecto, em vários diálogos, os personagens não sabem explicar o porquê estão ali, como vieram parar ali, o que esperam da guerra, tampouco demonstram ter noção dos efeitos irreversíveis que aquilo pode desencadear em suas vidas, na daqueles que lhe são próximos e mesmo para os rumos da humanidade. Ou seja, o grito de Hemingway contra a guerra é notório.

Ainda assim, parece que para Hemingway nem tudo está perdido. É como se ele dissesse que ainda há esperança! Sim, porque é justamente em meio à Guerra que Frederic Henry encontra o amor de sua vida, o que transforma sua visão de mundo, seus valores, seus sonhos. Com o amor tudo passa ser diferente para Henry. A vida passa a ter um novo sentido e muito mais belo do que antes. É como se Henry encontrasse sua razão de viver, e nem a guerra é capaz de lhe impedir de sentir esta emoção.

Agnes e Hemingway durante a I Guerra

Em Adeus às Armas, publicado em 1929, Hemingway lança a semente da Contracultura, movimento que, entre 1960 e 1970, bradava: “faça amor, não faça guerra”. Como se sabe, a Contracultura tinha como ícones Janis Joplin, John Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrisson e, entre suas causas, estava a oposição veemente à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Há quem critique a postura da personagem Catherine, afirmando sua subserviência excessiva perante Henry. A crítica não procede, no entanto. Não totalmente. Um olhar atento à obra revela que dita submissão é mútua. Henry, a todo momento, cede para estar com Catherine. Enfrenta diversas situações embaraçosas e de perigo, por vezes com risco de morte, para estar ao lado dela e, assim como ela, não se cansa de repetir que ela é a mulher de sua vida. De mais a mais, basta ela dizer que gostaria que ele deixasse a barba crescer para ser prontamente atendida. Enfim, a entrega, a doação, o cuidado é mútuo.

Em meio à narrativa também aparece um tom religioso e uma suposta visão muito particular de Hemingway sobre o tema. É que, em certo momento, um padre, cujo nome não é revelado, pergunta a Henry se ele acredita em Deus, e Henry responde: “somente à noite”; ou seja, no período em que ele permanecia com Catherine. É como se Hemingway dissesse que a verdadeira religião (do latim religare – religação entre humano e Divino) somente se dê pelo amor.

Em Adeus às Armas amor e guerra são colocados lado a lado. Há um fiel retrato do absurdo da guerra e a descoberta do sentido da vida por meio do amor. Mas há também a demonstração da efemeridade da vida e das relações humanas em que tudo pode acontecer, a qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer um. Vida, morte, amor; imprevisibilidade, imponderabilidade e riscos são fatores com os quais todos se deparam ao longo de suas vidas, daí por que melhor viver o Amor e dar Adeus às Armas.

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