Portas da Percepção / Céu e Inferno – Adous Huxley

portas-300x246Portas da Percepção não é um romance, um conto, uma novela ou algo do gênero. Trata-se de uma descrição feita pelo escritor Aldous Huxley de sua experiência com a mescalina, também conhecida como peiote. A mescalina é uma espécie de cacto, originária do México, e foi utilizada em cerimônias místicas por povos indígenas daquela região. Tecnicamente, consiste num alcaloide que altera o estado de consciência das pessoas e lhes possibilita aceder a uma realidade, ordinariamente, imperceptível.

O texto foi publicado em 1954, seguindo-se-lhe uma espécie de complemento, sob o título de Céu e Inferno, publicado em 1956. Neste último, não há relatos sobre as experiências com a mescalina, e sim esclarecimentos sobre as mudanças na forma de Huxley compreender a vida após as experiências com a mescalina. Em Céu e Inferno e em seus 8 apêndices, o autor tece comentários sobre religiões, uso de alucinógenos em rituais místicos, além de realizar um traço comparativo daquilo que para ele pode ser designado como paraíso e inferno.

O título Portas da Percepção baseou-se em um poema de William Blake – The Marriage of Heaven and Hell – (1790). Em certo trecho do poema, Blake afirmou: “If the doors of perception were cleansed; everything would appear to man as it is: Infinite. For man has closed himself up, till he sees all things through narrow chinks of his cavern.” (“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria ao homem como é: Infinito. Para o homem fechado em si mesmo, ele vê todas as coisas através de estreitas fendas de sua caverna”).

Mais adiante, o título também inspirou o nome da banda The Doors, por iniciativa do próprio Jim Morrison, líder do grupo.

realite-croyance-300x210Huxley, no decorrer do texto, salienta que não estaria fazendo apologia às drogas e que sua experiência foi conduzida mediante acompanhamento médico. Esclarece que consumiu quatro décimos de um grama de mescalina, dissolvidos em meio copo de água e o que se seguiu foi uma série de impressões inéditas, narradas de modo detalhado no ensaio. Na descrição, ele sustenta que essa outra realidade não só existe como é plena, embora esteja fechada aos níveis de consciência comum. Apenas alguns médiuns e artistas conseguiriam ter acesso a ela sem recorrer a alucinógenos como a mescalina.

O autor destaca que a outra realidade não é nem agradável, nem desagradável; ela “apenas é”. Destaca, mais, a alteração da percepção do tempo e do espaço, os quais deixam de ter contornos objetivos, fixos e mensuráveis. Segundo o autor: “as paredes do escritório já não davam a impressão de encontrar-se em ângulos retos”; “minha mente agora percebia o mundo de acordo com categorias outras que não espaciais”. “A indiferença ao espaço era acompanhada por uma indiferença ainda maior ao tempo.”

Outro ponto ressaltado na descrição diz respeito à diferença notória da percepção das cores, as quais passaram a ter vivacidade e multiplicidade inimagináveis aos nossos sentidos e indescritível em palavras.

A par desses aspectos, o mais importante mesmo de todo o relato parece ser a sensação do não-eu. Para Huxley, a mescalina o libertou do mundo dos eus, dos juízos morais e de um mundo movido por condutas utilitaristas, e esta liberdade lhe proporcionava uma sensação de extrema paz, plenitude e integração ao todo.

Ao longo de ambos os textos há várias referências a obras de arte, desde música, pintura e escultura, além de passagens de cunho religioso, como evidências dessa outra realidade. Nesse sentido, podem ser destacados não só o poema de Blake, mas igualmente obras como A Ruptura, Thomas Carew; Madrigais, de Caro Gesualdo; Suíte Lírica; de Alban Berg; Concerto para Piano em Dó Menor, de Mozart; A Cadeira, de Van Gogh; Madame Moitessier; de Ingres; Caçada na Floresta, de Paolo Uccelo; Nenúfares, de Monet; O Sepultamento, de Caravaggio, além do Livro Tibetano dos Mortos e referências ao Budismo e Cristianismo.

No entender de Huxley, o cérebro humano e a própria linguagem seriam barreiras e filtros da realidade, de maneira a tornar a vida possível, já que o ser humano não teria estrutura para suportar a realidade em toda sua amplitude. As barreiras existiriam por fatores biológicos, portanto. No seu dizer: “o que sai do outro lado é um mero fio de água do tipo de consciência que nos ajuda a permanecer vivos na superfície deste planeta em particular.”

A leitura de Portas da Percepção e de Céu e Inferno fazem emergir várias questões, tais como: o que é realidade? Como acessá-la? Devemos/podemos acessá-la? O que é religião, em sua acepção mais profunda? O que é o ser humano? O que é a vida? Qual o papel das artes em relação ao eu, à vida, à realidade? Como o ser humano tem conduzido a civilização? Existe possibilidade do uso controlado de certos alucinógenos contribuírem para a evolução individual e coletiva?

Sob este enfoque, os relatos de Huxley assumem dimensões muito mais amplas do que meras narrativas. O texto passa por diversas áreas, caso da filosofia, da religião, da estética, da psicologia.

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