Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski

subsoloMemórias do Subsolo, publicado em 1864, recebeu o título em russo de Zapíski iz Podpólia. No entanto, parece não haver consenso quanto ao sentido exato das palavras que constam do título. Prova disso são as várias traduções recebidas. Em francês foi traduzido como Notes d’un Souterrain e L’Esprit Souterrain. Em inglês como Memoirs from Underground e Letter from the Underworld. Já em português, além de Memórias do Subsolo, recebeu a tradução de Notas do Subterrâneo.

A referência ao título é essencial para se compreender o livro. A narrativa é feita em primeira pessoa por um sujeito com 40 anos, cujo nome em momento algum é revelado. Tudo se passa em meados do Séc. XIX e o protagonista está imerso em si, divagando em fluxo livre de consciência sob sua condição humana mais íntima e sua relação com a sociedade. As notas ou memórias são seus pensamentos, sentimentos, lembranças, impressões. Mas não se trata de memórias triviais ou de acordo com as convenções sociais. São suas mais duras e honestas confissões a si mesmo. Trata-se de um mergulho em seu eu profundo, sem máscaras, escudos ou maquiagens, daí a expressão subsolo, demandando do narrador um esforço enorme para penetrar e desvelar o que está oculto; o que ninguém vê, nem ele próprio. Não por acaso, Memórias do Subsolo influenciou o pensamento de Nietzsche, Sartre, Camus e Freud dada sua complexidade psicológica.

Ao longo do texto emerge um turbilhão de sentimentos contraditórios, difíceis de serem classificados ou expressos em uma linguagem inteligível e cuja ambivalência inquieta e confunde o próprio narrador. Seja como for, ao colocar sinceramente aquilo que está em seu subterrâneo, há, de certo modo, um alívio, um apaziguamento, uma libertação do sujeito. Algo como reconhecer-se; uma espécie de significar para ressignificar.

A ambiguidade do narrador fica clara quando, por vezes, ele demonstra autoconfiança, mas, ao mesmo tempo, porta um sentimento de repúdio a si mesmo, o que sugere ausência de maniqueísmo na essência humana. Por outras palavras, não existe bom ou mal no subsolo.


fiodor dostoievskiNota-se, ainda, uma amargura no narrador por ele não se ver realizado em sua vida, aspecto que lhe faz sentir distante dos padrões sociais e lhe conduz a uma espécie de ressentimento consigo e com os outros. Este cenário se agrava na medida em que ele não consegue verbalizar seus sentimentos com quem interage. Sua maneira de agir e de se expressar é a antítese do que ele busca e necessita. Comporta-se de maneira agressiva e hostil quando, no fundo, carece de amor. Algo como se alguém precisasse de água, mas dissesse: eu não preciso de água; eu quero fogo!

Ao se portar desta maneira se afasta mais do convívio social, o que lhe acentua o sentimento de raiva, rancor, vontade de vingança e culpa sem saber o motivo.

A princípio, o niilismo demasiado do narrador desencadeia no leitor certa repulsa; afinal, ele é incoerente e aparentemente não contribui para reverter o quadro de ressentimento. Não obstante, a leitura atenta das memórias daquele que penetrou em seu subsolo retrata uma série de aspectos que, além de colidirem frontalmente com o senso comum, produz no leitor uma espécie de empatia em relação ao personagem.

Por conta disso, ler Memórias do Subsolo tem um efeito libertador. Diz-se isto porque o autoconhecimento e a aceitação pessoal parecem ser o melhor caminho à liberdade e à paz, sentimentos estes que mais se aproximam do que podemos chamar de felicidade.

José Ricardo Alvarez Vianna



Extratos:

“Hei de ir até o fim! Foi por isso que tomei a pena…”

“Tenho agora vontade de vos contar, senhores, queirais ouvi-lo ou não, por que não consegui tornar-me sequer um inseto”.


“Fiz parte do funcionalismo a fim de ter algo para comer (unicamente para isto), e quando, no ano passado, um dos meus parentes afastados me deixou seis mil rublos em seu testamento, aposentei-me imediatamente e passei a viver neste meu cantinho”.

“Eu não me estou justificando com esse todos….apenas levei até o extremo, em minha vida, aquilo que não ousastes levar até a metade sequer, e ainda tomastes a vossa covardia por sensatez, e assim vos consolastes, enganado-vos a vós mesmos”.

“Sou desconfiado e me ofendo com facilidade, como um corcunda e um anão, mas realmente, tive momentos tais que, se me acontecesse receber um bofetão, talvez até me alegrasse com o fato” (…) “ E o principal, por mais que se rumine o caso, está em que eu sou o primeiro culpado de tudo e, o que é mais ofensivo, culpado sem culpa”.

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