Leite Derramado – Chico Buarque

12744 gg-207x300Há uma expressão popular que diz: não adianta chorar pelo leite derramado. Seu significado indica que de nada adianta se lamentar pelo que passou; pelo que se fez ou deixou de fazer; por algum infortúnio. Sob este enfoque, leite derramado sugere algum acontecimento passado e irreversível cujo resultado não se deu como se esperava. Cabe, portanto, ao sujeito se ajustar à atual situação; adaptar-se e seguir adiante.

Tais considerações são importantes para se entender o enredo deste livro de Chico Buarque. Antes disso, é interessante anotar que a obra traz semelhanças com os livros Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, ambos de Machado de Assis. O estilo irônico e sagaz de Chico também se aproxima daquele do Bruxo do Cosme Velho.

A semelhança entre Memórias Póstumas e Leite Derramado está no fato de ambos serem livros de memórias. Porém, no de Chico, o narrador não é um morto, mas um senhor centenário – Eulálio Montenegro d’Assumpção – que, em seus momentos finais, preso a um leito de hospital, expõe seus pensamentos, sentimentos e lembranças principalmente para uma enfermeira local.

Outra correlação com a obra de Machado está na desconfiança persistente de Eulálio de que sua esposa lhe teria traído, embora o desdobramento dessa sanha seja bastante diferente da que se dá em Dom Casmurro.

A par dessas semelhanças, Leite Derramado conta a saga da fictícia família Assumpção que teria chegado ao Brasil juntamente com a Coroa Portuguesa. De hábitos refinados e de grande influência na sociedade, os Assumpção teriam contado com um barão, na época do Império, e um senador, durante a primeira República, o que não impediu sua decadência social e patrimonial em meio a dois Séculos.

No decurso das memórias há referência ao período da escravatura, à oportunista exploração imobiliária, aos costumes banais da burguesia, ao governo de Getúlio, à ditadura militar etc. Enfim, há uma espécie de radiografia do Brasil, desde a vinda da família real até os dias atuais.

Por ser narrado por um integrante de uma suposta família tradicional, o texto apresenta a visão de mundo e o modo de agir em sociedade dessa casta, repleta de preconceitos e soberba. Destaca, ainda, que seu estilo perdulário, envolto em títulos artificiais e valores superficiais, teriam sido decisivos para seu declínio evidenciado a cada capítulo.

Ao longo do texto, os fatos são apresentados de maneira não linear. Muito pelo contrário, as memórias são um vai e vem contínuo, por vezes contraditório e sem sentido, mesclando em seu conjunto um sentimento de leite derramado, embora sem perder o toque de ternura em tudo o que foi visto, sentido e vivido por seu narrador.

Sob este último aspecto, Eulálio parece estar em busca de sua redenção. Procura em meio às suas lembranças saber quem ele é. Para tanto, recapitula suas origens, os valores de seu entorno; suas dúvidas e medos; seus sonhos e conquistas. As memórias seriam então confissões à deriva em busca de emancipação. Não estão sendo contadas para a enfermeira ou para quem quer que seja. Trata-se da constituição de uma identidade; de sua identidade.

Remexer em suas memórias foi a maneira que Eulálio encontrou para lidar com seus fantasmas e poder morrer em paz. Ainda assim, mais importante do que está dito em palavras, é o que está presente nas entrelinhas da narrativa, onde estão ocultos culpa e arrependimento; discernimento e compreensão.

Leite Derramado venceu o prêmio Jabuti de livro do ano em 2010. Além disso, foi traduzido para o francês, alemão, italiano, espanhol e inglês. Chico confirma, assim, que seu talento não se limita à música. Com uma escrita clara e fluída, Leite Derramado prende a atenção do leitor desde o primeiro parágrafo.

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