A Extração da Pedra da Loucura – Hieronymus Bosch

A Extração da Pedra da Loucura A Extração da Pedra da Loucura Hieronymus Bosch

A pintura “A Extração da Pedra da Loucura”, do holandês Hieronymus Bosch, concluída aproximadamente em 1475, é impactante.

Numa visão ampla, observa-se a presença de um homem, sentado, abatido, sem noção do tempo e do espaço onde está inserido, sendo submetido a uma suposta intervenção cirúrgica rudimentar para, ao que tudo indica, ser curado da loucura.

Só por este enfoque já é possível extrair algumas ilações, como, por exemplo, a confiança excessiva do homem na ciência – ou somente na técnica – para a solução de todos seus problemas, de modo simplista, imediato e, literalmente, superficial.

Sucede que “loucura” não é algo tão palpável, lógico e racional como se gostaria. Não o bastante para ser “tratada” mediante procedimentos materiais imediatistas. “Loucura” é algo complexo, abstrato. Basta perguntar: o que é loucura? Quem é louco? Quem não é louco? Seu conceito é biológico ou cultural? Neste último aspecto, vale lembrar da obra de Michel Foucault, “A História da Loucura”…

Mas a pintura “diz” mais. Muito mais! O cirurgião traz sobre sua cabeça um funil. Funil, aqui, pode ser visto como um instrumento – novamente a técnica reducionista – que costuma ser utilizado para realizar a passagem de líquido de um compartimento a outro. Portanto, é um instrumento que permite o acesso a algo. Porém, na imagem, o funil está na cabeça do cirurgião e apontado para cima. Ou seja, não serve para nada. Pelo contrário, parece demonstrar uma forma limitada de ver o mundo, eis que apontado para o céu.

Um olhar mais detalhado da imagem faz perceber que, na verdade, não está sendo extraído pedra alguma da “mente” do “louco”, e sim uma planta (uma flor?). Enfim, algo vivo e símbolo da beleza e da ternura. Isto, todavia, parece não criar surpresa nas pessoas que acompanham o procedimento. Pelo contrário, estas parecem não se dar conta daquele elemento que de louco nada tem, ou tudo tem…

Para completar, vê-se um religioso e uma religiosa acompanhando o processo. Seria a união de religião e ciência? Se for, ambas parecem falhar, pois a freira parece estar com suas atenções bem distantes dali, além de não obstante ter um livro sobre sua cabeça, símbolo do conhecimento, este esta fechado, o que o torna inútil ou não mais do que mais um peso a suportar.

O frade, por sua vez, tem um semblante circunspecto, tenso, firme, além de segurar uma jarra de vinho, como instrumento de sua fé.

Por fim, e não menos importante, vê-se que o homem submetido à incisão está sem seus sapatos, os quais podem ser vistos abaixo da cadeira onde ele está sentado. Seus pés, aliás, não podem ser vistos na imagem e sequer parecem tocar o chão. Ou seja, além de rotulado de louco, ele está sem chão, tudo em nome de classificações, categorizações, julgamentos e soluções superficiais, simplistas e, sobretudo, inócuas.

Como disse Niels Henrik David, mais conhecido como Niels Bohr: “A sua teoria é louca, mas não louca o suficiente para ser verdade.”

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