“Causa Sui”

dominos-300x238Em minhas mais remotas lembranças está o prazer de desenhar. Não sei quando comecei a desenhar. Sei que desenhar sempre foi uma maneira que descobri para captar a vida e trazê-la para meu mundo. Ao desenhar, buscava detalhes, contornos precisos, diversos matizes de cores ou somente aceder a mim mesmo.

Desenhar é ser livre.

Foi justamente por causa de alguns de meus desenhos que me deparei com uma de minhas primeiras impressões sobre a vida. Sobre causa e efeito. Ou melhor: ao menos sobre o que dizem sobre causa e sobre efeito.

Foi mais ou menos assim: eu contava com uns 6 anos de idade. Naquela época havia o hábito de pessoas utilizarem sacos de papel para acomodar as compras feitas nos supermercados. Os sacos plásticos vieram mais tarde. Foi, então, que, ao me deparar com alguns daqueles sacos de papel em casa, resolvi colocar um deles em minha cabeça e assim identificar ali a matéria-prima para desenhar neles; desenhar rostos neles.

Comecei fazendo as aberturas rudimentares para olhos, narizes e bocas nos tais sacos. Com o tempo o processo foi se sofisticando; comecei a fazer desenhos diferentes, criar “rostos” individualizados. Passei a pintá-los de várias cores, com pincel e tudo o mais que me era possível. Chegava até a detalhes em alguns rostos utilizando chumaços de algodão, fazendo bigodes, barbas, sobrancelhas e cabelos.

Meus rostos eram baseados em desenhos da TV, em pessoas que eu conhecia ou inventava. Havia até o rosto de um cachorro que eu chamava de Bingo. O fato é que todos tinham nomes e personalidades próprias; alguns eram calmos; outros, nem tanto.

Quando eu já contava com cerca de 12 personagens, tive a ideia de vendê-los. “Mas vendê-los para quem?“, eu me perguntava. E eu mesmo encontrei a resposta: “ora, vendê-los na rua mesmo.“

Não posso confirmar a qualidade dessa minha obra. Contudo, posso dizer que eu realmente gostava. Gostava do que via; do que fazia.

Tão logo surgiu a ideia de vender pela rua meus alter egos, coloquei-os em uma sacola e saí para o mundo. Antes de prosseguir, devo destacar que os rostos foram feitos ao longo de semanas. Ou seriam dias? Não sei. Quando se é criança a percepção do tempo é bem diferente. O que sei é que aqueles rostos desenhados eram meus primeiros espelhos.

Se eu estiver certo, essa minha primeira saída de casa com meus eus aconteceu em um domingo. Digo isto porque havia cheiro de domingo, cor de domingo, som de domingo, olhares de domingo por onde eu passava na ocasião.

Ou será que era algum feriado? Não! Não era feriado. Feriado é diferente de domingo. Feriado é feriado; domingo é domingo. A gente sabe disso.

Saí de casa por volta das 15h00. Não havia quase ninguém na rua, muito menos em frente das casas por onde eu seguia. Só que quase ninguém não é o mesmo que ninguém. Explico: após descer um pouco pela rua, e antes de chegar onde havia o homem mal do saco – pelo menos é o que me diziam, embora eu nunca o tenha visto –, percebi que havia um senhor idoso, sentado numa cadeira na varanda de uma das casas. Ele contemplava a paisagem; paisagem esta que sequer existia ali em termos concretos. Mas isto é o de menos. Quem foi que disse que é preciso ter uma paisagem para contemplar paisagens?

Na ocasião, fiquei acanhado em chamá-lo e antes de tomar coragem para qualquer iniciativa, ele entrou para a casa. Acho que ele morava. Ele era muito idoso, tinha os cabelos totalmente brancos e uma andar trôpego.

Quando ele se recolheu, em vez de eu ficar frustrado pela oportunidade perdida, vi naquilo a grande chance de alcançar meu objetivo. Foi quando, sem hesitar, invadi o domicílio, adentrei à varanda e deixei a sacola com todos meus rostos na cadeira em que ele estava sentado.

Só que, ninguém apareceu…

Passaram-se cerca de cinco minutos e, para uma criança, isto é uma eternidade. Foi obrigado a adotar plano “B”: apertar a campanhia.

Após o “dim-dom”, o senhor apareceu. Olhou em direção ao portão e não viu ninguém, já que eu estava escondido. Antes de se recolher novamente, ele percebeu a existência de minha obra sobre cadeira. Obra? Talvez não. Mas seguramente algo feito com muito prazer; o que, no fundo, é o que importa nas coisas que fazemos. O resto é resto. Pena que nos esquecemos disso. Deveríamos nos lembrar mais de quando erámos crianças. Afinal, a criança de ontem ainda está em nós. Nós é que não deixamos ela aparecer na maioria das vezes; nem para nós mesmos.

Bem. Ao se deparar com o que havia na sacola, o tal senhor começou a pronunciar palavras ininteligíveis. Hoje, suponho que eram xingamentos; provavelmente, em alguma língua estrangeira. Digo isto pelo seu semblante de poucos amigos. Desde este momento aquele senhor se tornou para mim um velho; um velho malvado; feio; chato…

Por quê?

Simples! Porque ele pegou parte de mim, xingou, rasgou e jogou tudo na rua.

Ah! E há outro detalhe: a sacola ele não jogou. Muito pelo contrário, pegou para si e levou para dentro. Velho egoísta!

Aquilo foi duro para mim. Jamais contei isto para alguém. Aqueles rostos eram parte de mim, sem que eu me desse conta na ocasião. Fiquei chateado e assustado com tamanha aspereza daquela pessoa.

A história poderia ser finalizada aqui. Mas não finalizou.

Após uma ou duas semanas daquele episódio, o velho malvado morreu. Isto mesmo. Morreu! Mor-reu! Todo mundo na rua comentava que o avô do menino da bicicleta esquisita havia morrido. E este avô morto era o tal velho. O velho mal! O velório foi na própria casa em que ele morava; mesmo cenário onde aquele morto havia matado meus primeiros eus. Lembro-me que, no portão da casa dele durante o velório, havia uma espécie de flâmula roxa, o que indicava que ali alguém havia morrido.

Com a morte dele, vários sentimentos evocaram. Num primeiro momento, eu tive uma certeza: o velho morreu porque havia sido mal comigo. Havia rasgado meu mundo. Isto – não posso negar –, causou-me uma sensação de justiça; de alívio…de prazer?

Mas tais sensações duraram pouco.

Rapidamente, comecei a supor que se eu não houvesse desenhado, ele não os teria rasgado e os jogado na rua, tampouco se apropriado de minha sacola. Logo, ele havia morrido por minha causa. Se não fosse por mim, ele estaria vivo.

Tudo isto me marcou profundamente. Sonhei várias vezes com aquele senhor. Sim, depois dele morrer, ele voltou a ser para mim um senhor idoso. E fui eu quem passou a ser o mau da história. Afinal, fui eu o responsável pela morte dele. Fui eu quem o matou. Uma espécie de vingança antecipada pelo que ele iria me fazer. Um embaralhamento de sentimentos e de sentidos sem sentido…

Talvez por causa disso, durante um bom tempo aquele senhor aparecia em meus sonhos e era muito rude comigo. Queria me pegar, me bater; gritava comigo e pronunciava os mesmos xingamentos que eu já ouvira dele.

Num desses sonhos, eu acordei aos berros; chorando, soluçando. E, claro, acordei todo mundo em casa. Nessa noite, nem meu pai, nem minha mãe entendiam quando eu lhes explicava aos prantos que havia sonhado com o homem que rasgara meus rostos e havia morrido por minha causa.

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