Meu Lado Forrest Gump

forrestgumpComo se sabe, Forrest Gump é aquele personagem da literatura, interpretado no cinema por Tom Hanks, que, aleatoriamente, se via diante de várias personalidades que marcaram a história contemporânea, caso de Elvis Presley, John Lennon, Richard Nixon, John Kennedy, George Bush (pai), entre vários outros.

Pois bem. De certa forma, todos nós temos nosso lado Forrest Gump. No meu caso, na maioria das vezes isto se deu pelos acasos da vida; em outras, da vontade inabalável, típica da mais pura tietagem, de estar lado a lado com algumas celebridades.

Não há espaço aqui ou até mesmo memória para mencionar todos esses “encontros”. Mas há para compartilhar algumas dessas passagens.

Uma delas ocorreu quando eu, do alto de meus 9 anos, tive a oportunidade de estar com Os Trapalhões; com os quatro juntos! Na ocasião, eles vieram fazer um show em Londrina no Moringão e, diante da intermediação de uma pessoa da organização, conhecida de meus familiares, eu pude acessar ao camarim onde estavam Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Ou melhor: quase todos. É que não havia ali nenhum Zacarias, e sim um careca, com fala grossa e semblante sério, que todos diziam ser o Zaca, embora nunca me convenci disto…
1-300x202

No futebol, embora eu tenha estado com Zico e toda a delegação do flamengo, quando a equipe carioca veio disputar uma partida em Londrina em 1979; e, em outra ocasião, tenha treinado com os profissionais do Corinthians quando ali joguei, foi mesmo em um almoço com Nilton Santos meu maior momento, dada a forma como tudo se passou. Digo isto porque Nilton foi bicampeão mundial pela Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1958 e 1962. Todavia, por não ser tão divulgada sua imagem e seus feitos pela mídia da época (1978), aliado ao fato de meu pouco interesse pelo futebol naquele momento, achei um saco estar ali em sua presença. Afinal, não sabia e muito menos queria saber quem era Nilton Santos. Em certo momento, ele até me perguntou se eu queria uma camisa do Botafogo, ao que lhe respondi que preferia a do Palmeiras, pois achava mais bonita. Diante disso, com um sorriso amarelo, ele esclareceu que do Palmeiras ele não tinha.

Ah! O encontro com Nilton Santos se deu porque meu pai havia servido a aeronáutica com ele e ambos mantinham uma relação de amizade desde então. Foi assim que, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, meu pai não hesitou em lhe fazer uma visita e me levar junto. O curioso é que só fui valorizar esse almoço anos mais tarde quando surgiu minha paixão pelo futebol e vim a descobrir quem era Nilton Santos; com alguns anos de atraso, claro. Hoje, Nilton Santos é o nome do Estádio do Botafogo, conhecido popularmente como Engenhão ou Niltão.
nilton-santos-jogador-480-divulgacao-fifa-300x225

Em meio aos figurões, não faltou personalidade cinematográfica hollywoodiana. Foi mais ou menos assim: em janeiro de 2000, eu caminhava com minha esposa pelas imediações da Fontana Di Trevi, em Roma, quando notamos um grande tumulto no local, com seguranças aos montes. Em razão disso, mesmo sem saber do que se tratava, optamos por desviar da multidão e seguir por sentido diametralmente oposto à aglomeração de pessoas. Foi, então, que de repente parou ao nosso lado uma limousine preta e de dela saiu a passos largos, uma figura conhecida de minhas memórias, mas que demorei a reconhecer. É que foi tudo muito rápido e imprevisto; ainda assim, em meio aqueles rápidos segundos, consegui identificar que aquela vasta careca pertencia a Bruce Willis. Ora, logo eu que era fã de A Gata e o Rato e de Duro de Matar, como pude demorar tanto a reconhecer David e John, os personagens interpretados por Willis, e tão presentes em minha adolescência.
brucewillisdiehard 300x347-259x300

Também estive ao lado de figuras da política e da História do Brasil. Em 1989, durante a campanha presidencial para as primeiras eleições pós-ditadura, fui a todos os comícios em Londrina. Em tais ocasiões, após os comícios, eu costumava me aproximar dos candidatos para tentar “debater” algumas ideias. Foi assim que estive e conversei com Mário Covas, Roberto Freire, Afif Domingos, Lula etc. Na época, Collor não fez comício, mas isto não me impediu de vê-lo bem próximo, caminhando pelo calçadão, como legítimo caçador de marajás, cumprimentando aos populares que dele se aproximavam.

A despeito disso, na política, meu momento mais marcante foi estar com Luís Carlos Prestes. Foi assim: eu e um grande amigo, após lermos Olga, de Fernando Morais, tivemos a ideia de inventar um trabalho da faculdade, consistente em uma entrevista com Prestes. Não foi difícil encontrá-lo após algumas pesquisas pelas fontes ordinárias, como também agendarmos um encontro com ele no Rio de Janeiro. Ele nos recebeu com muita cordialidade e, durante nossa conversa, ele nos contou bastidores do movimento tenentista em 1922, de sua prisão isolada por 9 anos, da Coluna Prestes, da perseguição de Hitler em relação a Olga, de seu exílio na União Soviética etc. Demonstrou, além do mais, ser profundo conhecimento da obra de Marx.

De qualquer modo, o que ficou dessa conversa foi sua impressionante lucidez e seu idealismo contagiante, com a esperança muito presente em dias melhores, apesar de já contar ali com mais de 90 anos. Segundo ele, aliás, não era só esperança; era a “certeza!”, como fez questão de ressaltar. Alguns meses depois disso, o Cavaleiro da Esperança faleceu.
220px-Bundesarchiv Bild 183-13290-0017 Luis Carlos Prestes-178x300

Na música, também tive meus momentos. Apesar de ter estado com Axl Rose e Paul McCartney; Paulo Ricardo e Evandro Mesquita, foi a conversa com Raul Seixas que ficou. Explico. Eu e um super-mega-ultra fã de Raul, outro grande amigo meu, decidimos ir até ao hotel onde estava Raulzito para tentarmos um autógrafo dele. Raul veio a Londrina em maio de 1989 para um show junto com Marcelo Nova; show este que acabou se tornando um de seus últimos, já ele veio morreu em agosto daquele ano.

Quando chegamos ao hotel, por volta das 17h30, bem ao contrário do que imaginávamos, não havia no local ninguém com igual propósito. Assim, na dúvida, confirmamos se Raul estava de fato ali hospedado, o que foi confirmado pela recepção. Aguardamos, então, uns 40 minutos antes de tomarmos qualquer iniciativa. Como nada acontecia, solicitamos aos atendentes da recepção que chamassem Raul para um bate-papo, pedido este que nos foi acolhido sem ressalvas. Na sequência, após cerca de 10 minutos, o Maluco Beleza desceu e chegou bradando em alto e bom som: “E aí moçada!”. Era nítido que ele já estava um pouco alcoolizado, mas foi extremamente cortês conosco. Falou, sem muita conexão, sobre sua vida; disse que a solução estava no rock and roll, pois o verdadeiro rock, mais do que qualquer coisa, é um grito; um grito de liberdade contra toda forma de opressão que aniquila a essência do ser humano. A conversa não durou mais do que 10 minutos. Do mesmo modo que veio, Raul tornou a seu quarto. De qualquer modo, aquele contato valeu mais do que o próprio show. Raul, como a maiorias dos artistas, transmitia uma energia de irreverência e sensibilidade aguçadas. Enfim, não foi por acaso que ele foi e continua sendo Raul Seixas.

2014 musica raul seixas divulgacao warner-300x166

Ah! E como poderia me esquecer? Houve o encontro com o falso Pelé. Confuso, não? Explico também. Quando eu jogava no juvenil do Corinthians e morava no Parque São Jorge, alguém foi até nosso alojamento e perguntou: “vocês não vão ver o Pelé?” E completou: “Ele veio fazer um comercial no Parque São Jorge junto com o Bozo”. Subitamente, todos que ali se encontravam foram correndo ao gramado do Estádio da Fazendinha para ver o atleta do Século de perto. Todavia, para nossa frustração, o Pelé do comercial não era o Pelé Pelé. Era um sósia dele. Como prêmio consolação, ficamos com o verdadeiro Bozo. Pelo menos foi o que disseram.
palhaco-bozo-5-300x225

Antes de encerrar, não posso deixar de registrar meu encontro com o Bem Amado. Tudo se deu quando eu, ainda adolescente, caminhava pelo centro de Londrina e, nas imediações da antiga Banca do Correio, avistei um senhor de cabelos brancos, caminhado a passos lentos, em companhia de outro senhor, bem mais jovem. Logo me dei conta de que se tratava do bom e velho Odorico Paraguaçu, ali de cabelos branquinhos. Vale lembrar que O Bem Amado foi a primeira novela produzida em cores da TV brasileira, cujas cenas que ficaram em minhas lembranças se misturam às minhas mais remotas memórias que trago na vida. Por conta disso, impulsivamente joguei às favas – como se tem dito – o orgulho e a timidez e me dirigi a ele para lhe pedir seu autógrafo. Ele me atendeu com um sorriso largo, bem ao estilo Odorico, e pacienciosamente respondeu: “sim, claro! Será um prazer!” Contudo, logo surgiu um impasse, eu não tinha papel, muito menos caneta para o autógrafo. A caneta foi até fácil conseguir. O vendedor da banca do correio arranjou. Mas e o papel? O papel eu consegui em minha carteira, daquelas da OP (Ocean Pacific). Nela, havia um cartão profissional de alguém e, após mostrar o verso em branco do cartão para Odorico, pedi seu autografo, sendo prontamente atendido, sem qualquer lastro de dúvida, resistência ou espanto.
o-bem-amado-NOVELA-1973-ODORICO-SUCUPIRA-295x300

Na mesma oportunidade, meio que por educação, pedi também o autógrafo do outro senhor, pois reconheci que se tratava, igualmente, de um ator global, embora não me lembrasse de seu nome. Sucede que, mesmo após sua assinatura, a dúvida persistiu, pois nela havia voltas (e revoltas; literalmente), de maneira que só consegui descobrir quem era aquele ator após consultar os jornais e pesquisar quem eram os demais atores que estavam na cidade para uma peça teatraç com Paulo Gracindo. Foi quando vim a saber que se tratava de Rogério Fróes. Ora, ora, como eu pude me esquecer? Fróes era o conservador e autoritário Sérgio da novela Locomotivas, que eu assisti quando criança. Para se ter uma noção do tempo disso, em Locomotivas, Elizângela (Patrícia) era uma adolescente e dia desses vi que ela, com muitos quilos a mais, faz hoje papel de avó em uma novela por aí.

rogerio

Eu poderia, ainda, mencionar aqui vários outros encontros casuais como estes, como o que se deu em Lisboa com Paulo Coelho. Mas isto, ficará para outra ocasião, talvez.

Autor:

Deixe um comentário